quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O cartão de crédito.




O telefone toca:
- Alô..
- Estou falando com o Sr. Jarí Antonio?
- Sim..
- Senhooooorrrr,o meu nome é Daniele e estou lhe falando em nome do Banco tal, o seu nome foi escolhido pela nossa empresa graças ao seu bom relacionamento comercial, e por isto temos uma ótima oferta para o Sr.
-Mas....
-Não se preocupe basta apenas confirmar alguns dados ao final de nossa conversa. Posso lhe adiantar desde já que o Sr. conta com alguns privilégios especiais, proporcionados pela nossa empresa. Tais como: Trinta por cento de desconto em hotéis, e redes de conveniadas para viagens internacionais. Seguro de vida para você e todos os seus dependentes. Translado gratuito do seu corpo em caso de acidentes aéreos, pompas fúnebres,capela,inclusive com a opção de cremação caso seja sua última vontade. Alem do mais o Sr. Poderá contar com toda a nossa boa vontade nas acomodações de pessoas de sua família, em hotéis cinco estrelas. Além disto, o Sr. Poderá contar com um crédito particular no valor de Trinta e cinco mil reais, sem necessidade de comprovação de renda, estes valores entrarão automaticamente em sua conta tão logo tenhamos a confirmação de alguns dados...
-Mas, eu....
- Veja bem, nosso cadastro nos informa que o Sr. É aposentado, trabalhava no setor de energia elétrica, é casado, tem três dependentes.possui casa própria, imóvel avaliado em 400 mil reais. Temos també informações de que o seu crédito pessoal no banco  tal e tal é de tanto, e que o Sr. Até o momento nunca fez uso de empréstimos consignados ou não, o Sr. Confirma estes dados?
-Sim, mas.....
-Tendo em vista ser o Sr. Proprietário de residência de madeira, oferecemos gratuitamente um seguro contra acidentes de qualquer natureza, que incluem a casa, os moveis e utensílios e também o carro, um Fiat Uno ano 1999, em nome de fulano de tal, o Sr. Confirma estes dados?
-Sim,sim, mas eu.....
- E tem mais, senhor Jari. A partir do momento do aceite a nossa proposta o Sr. Poderá ainda contar com uma rede de atendimento em todos os postos de combustível que trabalham com a bandeira tal, pode contar com serviço de guincho, chaveiro, troca de pneus,bateria, e concerto de eventuais defeitos mecânicos que possam ocorrer durante uma viagem. Ainda, se for do seu interesse temos convenio com algumas companhias marítimas para que possa desfrutar daquele cruzeiro, quem sabe uma segunda lua de mel, hein ? Como vê Sr. Jari, o Sr. Está a poucos passos de realizar muitos sonhos. Vamos confirmar alguns dados por gentileza. Não precisa responder, basta apenas acompanhar, o ser. Entendeu?
-Sim, mas....
- Seu CPF e tal, Rg.tal ,telefone tal, reside na rua tal,bairro tal cidade tal, é cliente do banco tal desde 1999, ag.tal. Agora para encerrar só nos informe por gentileza o valor do seu benefício para confirmarmos...
- RS$ 650,00...
-Quanto?????, Não compreendi bem...
-650,00....
- pip pip pip pip pip pip

É ou não é assim mesmo? 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


Vamos falar sério?
A cidade de São Leopoldo está passando por um momento um tanto quanto delicado. Milhares de pessoas sem abastecimento normal de água, sofrendo tudo aquilo que se possa imaginar. Compreende-se a preocupação e o sofrimento destas pessoas, mas também temos que ser justos e reconhecer de vez as nossas deficiências quando se trata da falta de serviços essenciais tais como água  luz telefone etc. No caso específico deste racionamento imposto pelo SEMAE, os fatores agora alegados não dão margem a dúvidas. Trata-se de problema sério, de manutenção, e não estamos falando de descaso, ou de desatenção dos órgãos responsáveis. Não, o que acontece é que simplesmente somos todos dependentes de equipamentos mecânicos, sejam bombas, transformadores, subestações, linhas de transmissão. A troca de uma destas bombas, seja de recalque ou de captação envolve um trabalho nada fácil, o qual exige mão de obra qualificada e atenção pois são encaixes perfeitos, parafusos, gaxetas, registros. Peças mecânicas muitas das vezes pesadas, necessitando apoio de máquinas e ferramentas de difícil operação. 

Muitas das vezes mesmo após serem consertadas não se pode simplesmente abrir os registros e largar toda a potência nas redes, pois o impacto e a pressão seriam suficientes para arrebentar com a rede já velha e obsoleta. Convém lembrar que a cidade de São Leopoldo tem ainda em vários pontos os velhos canos galvanizados em sua rede de distribuição. Quem nunca se preocupou em examinar um pedaço destes canos após longos anos, seria um exercício bem importante a ser feito. Co o tempo, e o acúmulo de substancias químicas usadas para purificar a água, eles vão tendo diâmetro interno gradativamente reduzido, o que pode produzir a diminuição do fluxo de água, e também o aumento da pressão interna em consequência do estreitamento destas partes, até a hora em que não suportando mais, acabam por estourar Já o bombeamento da água bruta, mesmo com apoio de filtros para a separação de eventuais resíduos que possam trancar rotor, palhetas, ou mesmo engasgar não evitam que pequenas partículas de terra, pedras e outros produtos passem pela partes internas, ocasionando desgaste natural das peças, levando periodicamente as manutenções, até mesmo a troca do equipamento.

Isto é coisa natural,e acontece em São Leopoldo, em Porto Alegre,em Sapucaia do Sul, em qualquer cidade onde houver distribuição deste líquido. Quando um juiz do alto de sua sapiência jurídica se inclina a conceder liminar onde dá ultimato a uma empresa que presta este tipo de serviços, ainda estipulando multa diária é o caso de a gente desconfiar que alguma coisa não está correndo muito bem. Ora, a coisa não é tão fácil assim, Não se trata de simplesmente dizer faça isto ou aquilo, e a coisa fica pronta. É muito confortável para um promotor, um advogado, um juiz determinar entrar com mandado disto ou daquilo. Mas convenhamos que antes de “determinar” coisas deste gênero deveria antes ser assessorado por técnico que conheça realmente o porquê das coisas. Fosse assim tão fácil quem sabe seria o caso deste senhor determinar quer São Pedro acabe com aquele regime de secas no nordeste, que a fome, a miséria e a seca terminem urgentemente sob pena de multa e até cadeia para os responsáveis. Tudo que aqui se falou, no que diz respeito falta de água, aplica-se também a falta de energia elétrica quando decorrente de fatores climáticos. 

Um temporal, um vento, uma sobrecarga, um raio, uma batida de carro com queda de poste, isto tudo pode acarretar falta de energia por horas, e até mesmo por dias. Não se trata de simplesmente recolocar os fios nos locais, levantar novo transformador e ligar punhos, chaves fusíveis. Antes de mais nada, deve-se observar o que determinou o defeito, saná-lo e depois, só então começar a fazer os reparos. É tarefa difícil, que ocupa mão de obra qualificada, perigosa e que por tudo isto precisa cercar-se de equipamentos e de logística apropriada visando a segurança dos trabalhadores. Acontecimentos desta natureza é que nos fazem refletir o quanto somos dependentes, e atrasados no que diz respeito aos serviços de distribuição de água, luz e telefones. 


Ainda bem que o gás,ainda está sendo distribuído nos tradicionais botijões.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


Mortes, preguiça e impunidades.
As noticias dos jornais já não causam mais os impactos de antes.Estou me referindo as mortes,os assassinatos, os estupros, a violência do trânsito, aos roubos e assaltos. Tudo isto virou de uma hora para outra rotina. Já não interessam mais os registros de ocorrência, as denúncias, pois, como se suspeitava e agora fica comprovado, não vão dar em nada. Vai tudo para o fundo de uma gaveta, somam-se novos algarismos as estatísticas existentes e ou mundo continua a girar. Os números mostrados pelos jornais deste dez de dezembro referentes aos homicídios impunes no Rio Grande do Sul são assustadores. Não estamos seguros, ou melhor, não temos segurança nenhuma, se antes ainda havia a possibilidade de contarmos com a ação das polícias buscando os criminosos, colocando-os atrás das grades a espera do julgamento, agora recebemos esta ducha de água fria, uma polícia mal aparelhada,fraca, que opera emperrada por entraves burocráticos, permite que mais de três mil assassinos continuem em liberdade, agindo a bel prazer, usando e abusando daquilo que mais sabem fazer; tirar vidas humanas.

Chamam a atenção as entrevistas dos secretários de segurança de todo o país, alegam dificuldades no número de agentes,salários defasados, armamento em condições de desigualdade para o enfrentamento do crime, organizado, e como sempre a velha e surrada desculpa de que os crimes e a violência que imperam estão vitimando apenas quadrilheiros, e gente envolvida com o tráfico. Mas, não é verdade. Existem muitas vítimas destas chacinas que nada devem a justiça, pessoas inocentes que são pegas pelas balas de bandidos e de policiais, e são estes tipos de assassinados os mais difíceis de serem solucionados por que geralmente carecem de provas, mais concretas,perícias superficiais que muitas vezes deixam para trás,fatos importantes tais como ouvir ou buscar ouvir testemunhas,colher detalhes com investigações mais aprofundadas.Estamos, ao que parece, caminhando para um estado de coisas onde o cidadão, deverá ficar entre as grades,cercado por mil artifícios como câmeras, microfones, fios, escutas, isto sem contar com rastreamento (agora já é uma certeza) de todos os nossos passos .

Isto mesmo, os nossos passos, porque os passos dos criminosos, ao que parece, as nossas autoridades não tem competência de rastrear nem mesmo dentro dos presídios. Com efeito, para a bandidagem é muito alvissareira as notícias que dão conta de tantos crimes impunes e processos que seguem rumo ao depósito dos insolúveis. Isto se chama desrespeito para com a população, de um estado que não investe em segurança, que teima em colocar graduados a serviço de políticos em gabinetes quando deveriam estar nas ruas policiando, ou pelo menos estudando estratégias, não se poderia esperar nada diferente. E ainda tem gente que apregoa o desarmamento da população. Somos, nos os responsáveis por toda esta onda de mortes, somos nos, aqueles que pagamos altíssimos impostos para termos segurança que não estamos exigindo aquilo que é nosso por lei. O direito de possuir uma arma para a defesa de nosso patrimônio. Ora, se o estado como agente responsável pela nossa segurança declara oficialmente a sua quase total omissão na elucidação de tantos casos de morte, o que mais nos resta? Você, que trabalha dia e noite, faz horas extras, toma três conduções para buscar o sustento de sua família, você comerciante que vive com o coração nas mãos, a espera que o delinquente venha e leve o fruto do seu trabalho, você que paga impostos sobre tudo o que compra, ou vende, você que assiste alguns políticos alardearem os incentivos recebidos(leia-se não pagar impostos) na construção e reformas de estádios para a copa dos alienados. 

Você que não consegue comprar meia dúzia de telhas para reformar o teu barraco sem recolher o maldito do imposto, você, meu irmão de sofrimentos, acha justo quando a própria polícia se declara impotente para fazer frente ao crime? Você acha que existe alguma autoridade que esteja ligando para os teus protestos quando juntas meia dúzia de desgraçados pela carnificina no trânsito e pede por justiça exige paz? Se você antes estava apavorado com tudo aquilo que acontece em São Paulo, fique sabendo que proporcionalmente o número de mortes violentas aqui no Rio Grande do Sul, é muito maior do que lá. E estamos todos contentes. Vamos inaugurar, aqui na cidade uma Secretaria dos direitos humanos, nossos governador anda com sua comitiva fazendo caminhadas pelo interior, e nosso secretário de segurança diz que tudo está bem, que temos segurança que não temos o que temer. 

Será mesmo? Ou somos um povo bitolado, ou então algumas autoridades esqueceram-se de tomar o seu comprimido de “memoriol”. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012



Amigo(a).
Quero passar a você uma mensagem de encerramento de mais um ciclo. Também, participá-lo de que nós católicos, do mundo inteiro estaremos comemorando o nascimento de Jesus. Eu sei você não tem religião, não acredita,é direito seu, e não vou, muito menos quero, fazer apologia a nenhum credo. Afinal, o que é religião, Deus, Jesus? As explicações teológicas, ficam para os entendidos, de minha parte quero apenas dizer que para mim a verdadeira religião é aquela que emana de nossos corações. E é neste sentido que desejo falar-lhes. Nestas festas de final de ano continue cultuando tudo de bom, tudo de honesto, tudo de verdadeiro que você praticou no ano que finda. Não se deixe seduzir pelo consumismo exagerado, reparta o pão, estenda a sua mão, olhe para baixo e veja como existem pessoas sedentas de amor, de um pouco de compreensão. Vamos, fazer a nossa parte, não importa se os outros esquecem, nos faremos a diferença.Vamos comemorar o Natal como uma cachoeira de bons sentimentos, de fraternidade,de palavras e atos que nos motivem a fazer o bem sem ver a quem. Jesus, o nosso Deus menino, pode não ter a mínima importância pra muitos, mas a bondade, a humildade a pureza de coração e sentimentos que ele nos inspira tenho certeza farão parte da sua festa de Natal. Vamos nos respeitar mais, vamos rezar para que a família, célula mater da sociedade, possa sobreviver a tantos achaques, que os pais realmente entendam o seu papel de educador e símbolo de fidelidade. Que a mulher passe valorizar-se cada vez mais como templo de pureza, exigindo e recebendo o respeito, resguardando e honrando seu ventre como local sagrado na geração de novas vidas. Que os filhos compreendam que a família unida, coesa, cheia de amor ainda é o lugar mais seguro do mundo. Que os jovens entendam, respeitem ofereçam o braço ao idoso, por tudo o que representam vivências, exemplos. Que o teu DEUS, aquele no qual acreditas, te ilumine,te guie, e te proteja. Que JESUS, nosso homenageado, nos permita com amor e respeito sermos cada vez mais sermos reconhecidos como Filhos de DEUS.

Tenhamos todos, um santo Natal, e um novo ciclo com muitas realizações, são os votos de Jaí Antonio Strapazzom e família.               

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012



                                E,estes oque esperam do Natal?

Uma noite especial.
Na mansão dos Limeira, os preparativos começaram bem cedo, logo nas primeiras horas os carros chegavam com arranjos, caixas de bebida ,tendas vasos de flores, foi um entra e sai durante todo o dia. José casualmente testemunhou as movimentações, quando passou com a mulher rumo a parada de ônibus. Ele, pedreiro, ela doméstica ambos saiam cedo para o trabalho no centro da cidade, as crianças ficavam por conta da filha mais velha, Marina. Era véspera de Natal, eles sabiam da situação dos pais, não esperavam nada de novidade alem da repetição de tantos outros natais, mas a filha queria fazer uma surpresa para os pais. Saíram a catar alguns galhos, secos, folhas de papel, e jornal, algumas pedras, e juntos começaram a montar aquela que seria a sua árvore de Natal. Na mansão, agora eram os estafetas que partiam para repartir os convites, eram muitos os convidados, a festa seria a beira da piscina, muita música, muita comida e presentes para todos os tipos e gosto. Estavam os irmãos concentrados nas tarefas de sua árvore  quando alguém bate palmas junto ao portão.

Marina vai até a porta e sua primeira reação é de medo e desconforto, um homem alto magro com barba por fazer, olhos tristes, roupas estranhas pedia para entrar. A primeira reação foi a de chamar por socorro, mas uma força estranha a impediu, aquele homem tinha uma estranha força no olhar, nos gestos. Ele entrou na casa e pôs-se a ajudar as crianças, e a contar histórias de sua infância. O almoço foi simples, tudo o que havia restado da noite anterior foi requentado e distribuído em porções iguais, entre os presentes. O velho convidado também participou. Os portões da mansão estão abertos, homens todos de preto observam todos os movimentos, carros luxuosos entram pelo portão, lá no fundo a música sinaliza que a festa já teve início. José e a esposa seguem em direção a casa, já é tarde, alguns pacotes, uma sacola, e a caixa de ferramentas do pai. Todo vem ao encontro dos pais, menos o velho visitante. O brilho da mansão contrasta com a escuridão da casa simples e pequena. O barulho da música, a algazarra dos convidados se ouve a vários quarteirões. 

A família por alguns minutos observa a alegria, a movimentação na casa dos vizinhos. José, absorto em seus pensamentos, deixa-se levar pelas lembranças, pelos projetos,  pelas esperanças,pelos sonhos dos natais passados. Nada mudara, tudo permanecera igual, os filhos com veste surradas, morando na humildade de uma casinha onde nenhum tijolo sequer havia sido colocado. Ele, que construía palacetes, casas enormes, luxo. Por que tudo acontecia desta maneira? Por que uns com tanto outros sem nada, ou quase nada?Absortos em suas divagações, somente foram notara diferença quando retornavam para dentro da casa. Havia algo estranho no ar, a casinha embora modesta parecia envolta numa aura clara e brilhante, Lá dentro um brilho muito intenso, uma luz radiante. Foram entrando devagarzinho, havia acontecido uma grande transformação, a árvore de natal antes um amontoado de galhos agora era um pinheirinho organizados, com pacotes, reluzentes, a mesa estava posta, com diversas iguarias, moveis e utensílios pareciam ter adquirido vida. Na cabeceira da mesa, aquele estranho visitante havia passado por uma transformação incrível. No lugar das roupas velha e surradas agora ele vestia uma túnica branca, alva, os cabelos antes em desalinho agora estavam cuidadosamente penteados, um olhar meigo e sorriso terno. 

Chamou-os para a mesa, todos sentaram então aquele homem falou; meu pai ouviu suas preces, bem aventurados os pobres de espírito,pois a eles pertence o reino de DEUS.Trago-lhes boas novas, suas vidas serão mais alegres,suas penas suavizadas, suas dores terão alívio. Na humildade desta casa encontrarão o conforto, a paz, e a alegria que em nenhuma mansão existirá. O luxo, o brilho e as bebidas os presentes caros, nada disto traz a paz de espírito, que lhes trago. Depois disto, levantou-se ergueu as mãos, pediu a família que orassem. Lentamente aquele home começou a levitar, foi saindo em direção a porta, e começou a subir até sumir por completo no céu estrelado. Ao voltarem para dentro de casa notaram um pedaço de papel, nele estava escrito; Jesus, esteve neste lar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012






Este texto, foi escrito em 2000,durante uma visita feita a um casal, que usava como moradia um forno de olaria. Foi publicado no jornal VS, e tive mais de duzentos pedidos de cópias solicitados. Aproxima-se o Natal, uma época de reflexões. Uma razão, para publicá-lo novamente.


Uma Escada para o céu

O ambiente escuro e úmido onde me encontrava seria o palco ideal para que ali fosse encenada uma peça, desde que o texto falasse sobre a miséria. Os artistas estão em cena, crianças famintas, todas em volta de um caixote, onde foi esfarelado um resto de bolachas. A única refeição do dia.O cheiro de mofo é insuportável.Tento erguer a cabeça para buscar o ar que falta e deparo com o telhado negro de fuligem.Vislumbro o causador de toda aquela estranha pintura, uma lata vazia de conserva com um furo faz-se de lâmpada e com sua luz amarela e bruxuleante ilumina o pobre cenário. A poucos passos dali, noutro cômodo da casa, a mãe observa o recém-nascido que dorme um sono de anjo sobre a cama de casal. Sou convidado a entrar, e fico de boca aberta com a cena: No meio de toda aquela pobreza, de toda aquela falta de alimentos e de roupas limpas, um bebê que parece ter saído de um clássico de TV. Linda, saudável e eu não tenho dúvidas em afirmar, naquele momento mil anjos estavam ao seu redor, pois apesar de toda aquela humildade (a cena destoava de tudo o que eu vira anteriormente) ele dormia tranqüilo e sereno.Resolvo ir saindo, na cozinha o cardápio já foi encerrado e meus pequenos atores já estão se recolhendo para o sono da noite dou uma olhada para dentro de um pequeno espaço escuro de onde se ouve uma voz acalmando alguém. Ali estão recolhidos os que compartilhavam a mesa, amontoados sobre um velho estrado de cama dividindo também a miséria de não ter onde dormir. Agora o carro começa a percorrer o caminho de volta, a minha frente as luzes da cidade contrastam com a escuridão da qual vou me afastando lentamente. Olho para traz e vejo a luz do candeeiro iluminando o casebre. Sinto um nó na garganta. Uma vontade voltar lá e pedir perdão àquela gente. Perdão por não poder fazer nada alem de escrever, de levar de vez em quando uma sacola de alimentos, umas roupas velhas. Perdão em nome de todas as pessoas que sabem destes problemas e não movem um dedo para poder resolvê-los, em nome de todos aqueles políticos cuja ajuda só aparece de quatro em quatro anos - não para ajudar, mas para buscar ajuda para se elegerem, ocupar cargos e sumirem pelas luzes da cidade.Eu não consigo entender. Se existem pessoas que são pagas para pensar em soluções, resolver problemas e aliviar estas questões sociais, por que tanto roubo, por que tantos desvios? Será que na hora de transarem estas ladroagens esta gente ignora que tem brasileiro morrendo na fila do SUS? Que existem crianças morrendo de fome e frio? Que tem brasileiros se alimentando de lixo?Fica muito difícil falar ou escrever sobre um tema desta natureza sem que se sinta na obrigação de bater forte na cara dos responsáveis por toda esta falta de respeito ao povo.
                                               Enquanto uns poucos vivem o céu aqui na terra, muitos brasileirinhos, no meio de suas tralhas, a luz de um candeeiro e dormindo amontoados como animais constroem bem devagarzinho, uma escada para o céu.

                                                                      
                                                                       

sexta-feira, 30 de novembro de 2012


Futebol em Sapucaia 2                                           
O carrinho abarrotado de laranjas, e bergamotas e lá seguíamos, eu e meu irmão para a beira do campo de futebol. Era a maneira de arrumarmos os trocados para a noite ir ao cinema.Naquela época era tudo mais fácil, bastava atravessar a linha férrea entrar na Rua Marechal Deodoro seguir até o fim e lá estávamos no Campo do Vera. Situava-se no espaço hoje compreendido entre a Rua Laurentino Juliano até as proximidades da Casa Primavera, no fim da Lindolfo Collor.As disputas eram muito valorizadas não só nos embates entre as equipes de Sapucaia, como o Vera Cruz, O Sapucaiense, O Taurus, O Sial, o Botafogo, mas, também contra as equipes visitantes. 

Em jogos de clássicos como Vera Cruz e Sapucaiense as torcidas lotavam os barrancos em toda a volta do campo, e havia até pressão por este ou aquele craque, os irmãos Pavani, o Eri e o Medinho, o Carlos bom goleiro, assim como o Gena, o Wanda, o Bernardino, o Milton, o Renato o Lola enfim eram os expoentes da época no futebol de várzea.Era gostoso ficar ali apreciando as jogadas vaiando as inúmeras erradas em bola, as defesas sensacionais do Carlos ou do Gena as entradas firmes do Eri Pavani que botava qualquer atacante no chão. Não raro, a partida tinha que ser interrompida, pois algum torcedor mais afoito, e embalado por uns tragos a mais inventava de tirar satisfações com o juiz e ai era aquele corre corre, dava gente subindo os barrancos, entrando pelas capoeiras para escapar da briga. Daí a pouco tudo estava normalizado, aparecia o jipe da brigada militar com o “seu João policia” os ânimos se acalmavam e a partida era reiniciada.

Nome feio valia qualquer um, valia xingar a mãe, a irmã, o pai a namorada a noiva aquele que fosse mais conhecido e que pudesse ofender ou chamar a atenção do agredido, às vezes acontecia do jogador estar numa jogada próxima do torcedor e ouvir o desaforo, largava da bola e saia no tapa isto quando conseguia pegar o cara, pois como o campo era um espaço aberto, sem cercas ou qualquer outro tipo de tranqueira o sujeito gritava o palavrão e deitava o cabelo.Certa feita jogavam o Vera Cruz e uma equipe de Esteio, o Maribondo Futebol Clube, o jogo estava empate em zero a zero só que aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo, o juiz, que era esteiense deu pênalti a favor da equipe visitante, foi aquele sururu, empurra daqui, segura dali, o pobre do juiz dançava pior que minhoca em chão quente, por fim a turma do deixa disto conseguiu acalmar os ânimos e foram para a cobrança. 

O Jogador dos Maribondos (Melão) parecia um touro acuado, suado resfolegando estava disposto a furar a rede e mandar com ela até o goleiro para o mato.Debaixo das traves o Carlos, meio agachado, braços abertos encarava serio o batedor. Soa o apito, o Melão distante quase dez metros da bola corre e bate forte, só que leva junto no bico da chuteira um cocurutos de grama, e o seu grito de dor é apagado pelo da torcida vibrando com a sensacional defesa do Carlos. Final Vera Cruz Zero Maribondos também Zero.Soube-se mais tarde que Melão havia destroncado o pé. Dos bons tempos só restam mesmo as lembranças, o campo do Vera Cruz foi aos poucos sendo tomado por casas, novas ruas foram abertas, prédios comerciais tomaram conta dos espaços e acabaram por encobrir totalmente os vestígios de uma época.

E o mais incrível é que guardo até hoje, quase quarenta anos depois, velho e enferrujado o esqueleto do carrinho, meu companheiro de torcidas, e fonte dos muitos trocados para assistir os filmes no saudoso Cine Marabá.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012


Da serie Personagens.
“Seu Estevão.”
Minha cidade teve inúmeros personagens típicos, os quais, na medida do possível, vou retratar aqui neste espaço. Dias atrás falei sobre o Gastão, hoje quero dedicar algumas linhas sobre um personagem não menos importante, o qual muitos dos leitores e seguidores deste blog vão lembrar-se, o Velho Estevão. Estevão Flores de Vargas. Homem influente na política do seu tempo, trabalhista, ex-secretário, ex-diretor na prefeitura Municipal de Sapucaia do Sul. Mas, a faceta que quero registrar tem algo a ver com a minha amizade com seus filhos, Estevão  Romagueira, o Caroço, bem como logicamente com a família do Seu Estevão. O Estevão (filho ) era entendido em eletroeletrônica (Um mestre) e tudo aquilo que havia para consertar eu levava par o Estevão. Estudávamos juntos ali no Grupo Escolar da Praça. 

Eles possuíam um velho Ford, um caminhãozinho para fretes, velho, mas, que funcionava bem, é bem verdade que a gente tinha que calçar a alavanca de câmbio com um pedaço de pau para não “soltar”, mas, o resto funcionava perfeitamente bem. Eu, era o companheiro do Estevão, para alguns fretes, porém o que mais gostava era quando fazíamos propagandas com o som no carro. Um velho amplificador, RGE valvulado, um adaptador para baterias um microfone acoplado e lá íamos nós pelas ruas empoeiradas da cidade a fazer propaganda dos bailes no salão Estrela do Sul. Vamos atualizar os dados, o Salão de bailes havia sido alugado pelo Seu Estevão, para bailes em fins de semana, estava situado onde é atualmente o Clube Comercial, ali na Rua Estácio de Sá. Nos fins de semana antes dos bailes costumávamos fazer propaganda do comercio ao redor do clube, pelos serviços de alto falantes, e, é claro convidando as pessoas para as festividades. 

O Seu Estevão, era um político importante na época, trabalhista ferrenho foi contatado para organizar a festa de recepção ao então vice presidente João Goulart, a caravana, em visita pelo vale dos sinos deveria fazer uma pequena parada ali na praça General Freitas no centro da cidade,após seguiria para a capital.O local escolhido foi bem em frente a praça ( o local tinha mais espaço) e o palanque foi montado bem em frente(na calçada) numa loja existente na época(depois passou a ser ocupada pela Relojoaria Silva.) Ficamos,(eu e o Estevão)incumbidos de montar os apetrechos de som, bem como ficar responsáveis pelo liga/desliga do microfone, já que era para ser um ato rápido devido aos compromissos do Jango. O povo lotou a praça, um calorão insuportável, eu e meu amigo ficamos do lado de dentro da sala, bem na janela, como o palanque era um pouco mais alto do que o meio da janela, podíamos ver apenas as pernas das pessoas que estavam sobre o palanque, com as mãos o Seu Estevão fazia o sinal para ligar, dar volume ou desligar os microfones. 

Por fim, lá junto  a Ferragem do Seu Darci,(onde hoje é o túnel) aparece o carro das autoridades,foguetes rojões, bandeirinhas (todas aquelas frescuras tradicionais). O palanque ficou superlotado. O primeiro orador a dar as boas vindas foi o prefeito Sr. João Batista de Oliveira, já avisado, disse meia dúzia de palavras e passou o microfone para o Jango (vice presidente) que também, naquelas alturas de saco cheio,deu o recado. Foi quando o Seu Estevão pegou o microfone e começou a falar, um minuto, dois, três, e nada do homem finalizar, foi quando o vereador Pedro Martins(único presente) resolveu “sinalizar” para o orador que a coisa estava demorando muito, e tascou um beliscão na bunda do Seu Estevão, por sua vez o político empolgado com a fala, esqueceu de pedir o desligamento do microfone e lascou: Que merda Pedro pare de beliscar a minha bunda cara; Gargalhadas geral, no palanque sorrisos amarelos, cabeças balançando, mas o velho Estevão, que de bobo não tinha nada, arrematou; eu só queria fazer este povo todo mostrar a alegria de conhecer o nosso vice presidente, e um piada sempre vem bem. Foi aplaudidíssimo. 

Seu Estevão já é falecido.Deixou sua marca em muitas melhorias feitas principalmente no Cemitério da Primor onde foi administrador por muitos anos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Este texto,não tem a intenção de traçar a biografia desta professora (D.Sibila), apenas prestar uma singela homenagem a grande professora, inteligente,humana e de grande caráter que ela foi.


Colégio da D. Sibila.
Hoje quero relembrar uma passagem muito especial, até por uma questão de respeito a uma das figuras mais importantes da nossa educação aqui no município de Sapucaia do Sul. Refiro-me a Professora e ex-vereadora Sibila Brigel, que foi durante muitos anos diretora do “Grupo escolar da Praça”. Exemplo de severidade, quando era preciso, e de ternura quando era o caso, a D. Sibila sabia como ninguém fazer as coisas acontecerem na sua escola. Foi, pelas mãos desta ilustre senhora que minha mãe, Adelia conseguiu um emprego, como zeladora. Aliás, vamos aproveitar o ensejo para homenagear mais algumas pessoas também importantes para o colégio da praça. Assim, temos as zeladoras, D.Olga, Carmem, Arinda, Conceição,D. Helena,D.Sara,D. Alzira,D. Alzenira, a D. Augusta alem, é claro do grupo de professoras das quais tratarei em texto a parte. Mas, o colégio da D. Sibila tinha um time de verdadeiras mães, não eram zeladoras estas mulheres, assim como a D. Sibilia não era apenas e tão somente uma professora, elas eram muito mais do que isto. 

Querem só um exemplo?Naquele tempo elas recebiam por verba que vinha da Secretaria Estadual de Educação, mas,não tinham qualquer tipo de vínculo, muito menos nenhum direito trabalhista. Apenas eram contratadas para fazerem a limpeza e só. Mas a D. Sibila não achava aquilo certo, não era justo para a experiente professora que suas auxiliares fizessem um serviço tão árduo sem nenhuma garantia. Trabalhou,batalhou, correu, discutiu até conseguir fazer um concurso, para que aquelas trabalhadoras tivessem suas situações regularizadas. E, conseguiu. Graças ao trabalho e ao empenho da D. Sibila minha mãe pode viver ainda alguns anos com a sua aposentadoria pelo Ipê, não só ela como todas as outras colegas. Era um tempo diferente, já haviam as conotações políticas.mas não haviam tantas ingerências,tantos intrometimentos de políticos idiotas com a educação. 

Os cargos eram preenchidos pela competência e não pela destreza nas mãos em afagar o escroto sujo destes calhordas. D. Sibila era assim. Autêntica, verdadeira, única. Talvez mesmo por isto tenha sido tão ignorada na sua passagem pela política local, aquele ambiente não era dela, a velha professora conhecia, sabia e exigia as coisas as claras, não aceitava meios termos. Não poderia sobreviver num antro com tantas cobras,tantos traíras, como aliás é até hoje.Mas sobre a nossa eterna mestra tem uma historinha que vale a pena repassar a posteridade.Existe ainda alki no final da Rua Luiz Cardoso um resto de uma mata,um capão com algumas árvores bem antigas.No tempo em que estudávamos no colégio da praça, era comum as professoras levarem os alunos para fazerem pique niques, naquele local, muita sombra,segurança, lugar agradável e que na época pertencia a Fábrica de Bolsas Guedes de São Leopoldo, mas o zelador deste recanto era ninguém mais, ninguém menos que o Gastão, isto mesmo, aquele do episódio anterior, das melancias. 

Foi num dia ensolarado, que a D. Sibila nos levou para passar o dia no mato. Todos perfilados, uniformes impecavelmente brancos, gravata azul, lá fomos nos. Todos levavam o seu farnel, a sua merenda. Brincadeiras, tombos, correrias, puxa aqui agarra ali, alguns namoros escondidos nas macegas (no bom sentido, nada de sexo) enfim a coisa rolava muito boa mesmo. Aliás, em matéria de namoro todos desejavam namorar, bem como um cineminha com a estudante top de linha a Maria Joaquina (nome fictício) era bonitinha, pernas sempre a mostra e nas aulas de educação física era a que mais se destacava por usar um calção bem mais cavado e curto, o que mostrava suas pernas bonitas e cochas grossas. Mas vamos voltar ao passeio. 

Tudo correu maravilhosamente bem, até a hora da despedida, cada um arrumava suas coisas, juntava os restos para colocar no latão que o Gastão havia trazido para botar o lixo. Foi então que a D. Sibila juntou todos os alunos em frente ao portão da casa do zelador, e tentou faz\er um agradecimento coletivo ao bom senhor. O Gastão, exibido como era, acompanhava a tudo com um largo sorriso, na boca. D. Sibila então fez a pergunta solenemente: e então queridos, o que se diz para o homem do mato? Biiiiiiiiiiiixoooooooo, respondemos todos.

terça-feira, 27 de novembro de 2012


Futebol em Sapucaia
Quando ainda estudava na Baiúca, ( Escola Maria Medianeira) trabalhava ali um cidadão de nome Joel Machado, sua função era de Auxiliar de disciplina. Cara legal, amigo de todo mundo incapaz de punir alguém, ou entregar para o diretor. Ele era muito chegado aos papos de futebol, entendido em leis. Por tudo isto foi eleito presidente da Liga Sapucaiense de futebol. Na época haviam muitos times de futebol em Sapucaia, praticamente cada vila tinha lá seu time de futebol, os mais conhecidos pela importância eram o Vera Cruz, O Sapucaiense, O Cubla, o Sial, todos disputando o campeonato da cidade. Também era realidade que todos possuíam seus “estádios” o campo do Vera Cruz, por exemplo, ficava na quadra que hoje corresponde as ruas Manoel Serafim,Laurentino Juliano,Rua Vera Cruz, e Marechal Deodoro. Havia muitas rivalidades entre os times, alguns com mais poderes aquisitivos do que os outros, ou ainda com jogadores mais técnicos, enfim. 

E neste particular Sapucaia tinha verdadeiros astros do futebol de várzea, O Carlos(goleiro) O Lola ( goleiro) o Medinho, o Eri Pavani (grande zagueiro) o Pelego, o Eli Zandonai o Wanda, o Ramão, o Benedito, o Nena. Naquele tempo eu fazia o meu pé de meia vendendo rosquinhas, fatias de bolo, merengues, e frutas como laranjas ,bergamotas, peras, maçã verde, tudo produtos de nossa chácara. E como a gente vendia bem, uma parte dos lucros ia para o domingo a tarde no Cinema Marabá, e a outra para a D. Adelia (minha mãe) que afinal de contas preparava as guloseimas.. Mas, quero contar uma passagem acontecida envolvendo uma disputa de futebol onde quase fui linchado. Era um domingo, sol escaldante, estava na maior das folgas na chácara deitado numa rede debaixo das pereiras, quando ouvi alguém que chamava. Era o Joel, queria que eu fosse cuidar, como representante da liga, um jogo de futebol entre os times do Vera Cruz e o Sial. 

Quando ouvi o nome dos times eu gelei. Eram os maiores rivais, e justamente onde mais aconteciam brigas, às vezes rolava até facadas, as pernas tremeram: Mas, Joel, eu não entendo nada disto, veio, manda outro para este troço, logo eu num jogo onde os caras se matam por nada,tira eu desta. Não teve jeito, ele garantiu que era por pouco tempo, logo em seguida ele estaria lá para me ajudar. Concordei, peguei  a ‘cristina” minha bicicleta, e me toquei pro campo do Sial. Chegando no local, me apontaram uma mesinha com uma cadeira sob um guarda sol improvisado, eu estava literalmente encharcado de suor, mas disposto a cumprir com a minha obrigação. O jogo era para ter início as quatorze horas, quando deu treze e cinquenta e nove o Sial, dono do mando de campo entrou fardado e cumprimentou a mesa. Eu, sinceramente não sabia o que fazer, minha vontade era sair correndo  e me esconder no meu quarto, só pensava em evitar uma paulada, uma facada ou um tiro, o tempo passando e o desgraçado do Vera Cruz não aparecia, e ninguém me dizia nada. 

Naquele tempo não havia vestiários, era um galpão onde os jogadores trocavam de roupas e deu. E o pior que não via uma viva alma do time visitante. Eu senti a base tremer quando alguém do Sial chegou perto da mesa e disse; tem que dar vitoria por VO. O quê? VO? Que é isto cara,eu não tinha a menor ideia do que significava o diabo daquele VO. Mas o cara disse aquilo e saiu de fininho, não demorou e apareceu outro com o maldito VO, com é seu representante vai dar ou não vai dar a vitoria pro nosso time, o Sr. Sabe que eles perderam por VO, não sabe? Claro que sei ,ora claro que sei, respondi. Então, o que está esperando? Vamos botar o time em campo, vamos chutar a bola e encerrar a partida. Puxa  vida, era tudo o que eu não queria ouvir. Levaram a bola para o centro do campo e já estavam prontos para dar início (e fim) ao jogo quando um caminhão sobe lentamente a lomba do campo com o time do Vera Cruz e a torcida gritando e agitando bandeiras. Daí foi um caos, uns queriam a vitoria por VO, outros alegavam que haviam chegado a tempo, e eu no meio sem saber o que fazer, só rezando em voz baixa para não apanhar. 

Tentei o golpe do João sem braço; pedi silêncio, que todos fossem para o centro do campo e aguardassem minhas determinações. Enquanto eles se aprumavam, no centro do gramado eu montei na bicicleta, e sai de fininho, juro por tudo o que é sagrado, nunca pedalei tanto e tão rápido, eu vinha lomba abaixo, cabelos em pé, eu queria sumir da vista da turba. Cheguei em casa , tremia como uma vara verde. Eu só pensava; daqui a pouco eles aparecem e vou levar uma surra como nunca levei. Não aconteceu nada,o Joel apareceu por lá resolveu a pendenga. Mas, só fiquei sabendo de tudo no outro dia na escola, depois daquele dia futebol para mim só pelo rádio, e assim mesmo olha lá.