sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Memórias de um cavalo

Memórias de um cavalo.

Hoje, aconteceu algo inédito. Saí para o trabalho ainda cedo, depois de uma noite mal dormida, mal alimentado, e com o lombo ardendo como se tivessem me envolvido num manto de brasas ardentes. Há dias tenho me sentido fraco, pernas bambas, o ar as vezes me falta, o coração dispara, me sinto cansado.

A bem da verdade, meu horário de trabalho é duro, saio geralmente de madrugada, e volto ao leito, pela noite. Às vezes morrendo de sede, cheio de dores, e a janta que me espera é quase sempre um molho de capim, que o patrão juntou a beira de um valo. Milho? Nem lembro quando foi a última vez que comi, alfafa? Não sei o que é isto.

Não tenho um nome específico, o patrão costuma dizer ” Heia, bicho” acho que este é o meu nome. Geralmente a cada comando costumo levar uma relhada no lombo, e como ardem às escaras que carrego, por conta dos arreios mal conservados e frouxos, estão em carne viva. Não queria sentir tantas dores.

Eu sabia que cedo ou tarde isto iria acontecer, não sei se por causa do sol forte, a sede o cansaço e a carga no meu lombo, tropecei e caí. Primeiro sentei, depois me esparramei no chão sob as vistas do patrão e de algumas pessoas que ali passavam. Tentaram levantar-me com alguns puxões na rédea, mas a única coisa que conseguiram foi me ferir ainda mais com as ferragens do freio na boca. A única coisa que lembro foi de alguém dizendo “coitadinho”, depois apaguei.

No meu breve desmaio, sonhei. Sonhei que era um cavalo bonito, de raça, destes com plano de saúde, médico a toda a hora, banhos de xampu e com direito a uma baia com ar condicionado e terapia anti- estresse. No meu devaneio me vi cobrindo éguas, destas lindas, vistosas dignas de capa de revista. Minha rações eram servidas por gentis senhores e senhoritas que examinavam, cheiravam, pesavam tudo o que me era servido.

Depois, descansava e antes de um novo trabalho, e que trabalho, vinham de novo aqueles senhores verificar pressão, batimentos cardíacos, colher fezes para exames, coisas de rotina. De repente sou acordado por alguém que me pucha pela rédea, e ainda me dá umas lambadas, daí me dou conta de não passo de um pangaré sem nome, magro, esquálido, e que tenho mesmo morrendo, sair para o trabalho, porque tem gente que depende de mim.

Como gostaria que meu patrão entendesse o que significa trabalhar vinte horas, sob o relho inclemente, tracionar uma carroça com uma carga alem das minhas forças, sofrer na carne viva o roçar dos arreios, com ferraduras desgastadas, que me maltratam os cascos. Como seria bom se ele entendesse que somos parceiros, eu o ajudo e ele me trata com respeito, assim como se trata um amigo, do qual dependemos para o nosso ganha pão.Este texto é minha homenagem a jornalista Brígida Sofia do GES pela foto estampada na página 09 do VS de 03 de setembro.

2 comentários:

EDUARDO POISL disse...

Pensamos demasiadamente
Sentimos muito pouco
Necessitamos mais de humildade
Que de máquinas.
Mais de bondade e ternura
Que de inteligência.
Sem isso,
A vida se tornará violenta e
Tudo se perderá.
(Charles Chaplin)

Hoje passando para desejar um final de semana com muito amor e carinho.
Abraços do amigo Eduardo Poisl.

Alda do Crítica disse...

Olá amigo Jaí, este teu texto me lembrou a música do Francis Cabrel que se chama "A corrida". Nesta música é o touro quem fala. Ele vai contando o que sente na tourada e pergunta "Será que este mundo é sério?" - Dá para refletir horas nesta letra. Se déssemos voz aos animais veríamos o quanto ridículos e desumanos somos.

Deixo um abraço sincero.
Alda, desde a Bélgica.
Deixo também um convite: venha ver as entrevistas de brasileiros que moram na Bélgica: http://a-vida-na-belgica.blogspot.com